terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e os divertimentos do carnaval

Consummabuntur omnia, quae scripta sunt per prophetas de filio hominis ― «Será cumprido tudo o que está escrito pelos profetas, tocante ao Filho do homem» (Luc 18, 31).

Não é sem uma razão mística que a Igreja propõe hoje à nossa meditação Jesus Cristo predizendo a sua dolorosa Paixão. A nossa boa Mãe deseja que nós, seus filhos, nos unamos a ela, para compadecermos do seu divino Esposo, e o consolarmos com os nossos obséquios, ao passo que os pecadores, nestes dias mais do que em outros tempos, lhe renovam todos os ultrajes descritos no Evangelho. Quer ela também que roguemos pela conversão de tantos infelizes, nossos irmãos. Não temos por ventura bastantes motivos para isso?

I. Não é sem razão mística que a Igreja propõe hoje à nossa meditação Jesus Cristo predizendo a sua dolorosa Paixão. Deseja a nossa boa Mãe que nós, seus filhos, nos unamos a ela na compaixão de seu divino Esposo, e o consolemos com os nossos obséquios; porquanto os pecadores, nestes dias mais do que em outros tempos, lhe renovam os ultrajes descritos no Evangelho.

Tradetur gentibus ― «Ele vai ser entregue aos gentios». Nestes tristes dias os cristãos, e quiçá entre eles alguns dos mais favorecidos, trairão, como Judas, o seu divino Mestre e o entregarão nas mãos do demônio. Eles o trairão, já não às ocultas, senão nas praças e vias públicas, fazendo ostentação de sua traição! Eles o trairão, não por trinta dinheiros, mas por coisas mais vis ainda: pela satisfação de uma paixão, por um torpe prazer, por um divertimento momentâneo!

Illudetur, flagellabitur et conspuetur ― «Ele será motejado, flagelado e coberto de escarros». Uma das baixezas mais infames que Jesus Cristo sofreu em sua Paixão foi que os soldados lhe vendaram os olhos e, como se ele nada visse, o cobriram de escarros, e lhe deram bofetadas dizendo: Profetiza agora, Cristo, quem te bateu? Ah, meu Senhor! quantas vezes esses mesmos ignominiosos tormentos não Vos são de novo infligidos nestes dias de extravagância diabólica? Pessoas que se cobrem o rosto com uma máscara, como se Deus assim não pudesse reconhecê-las, não têm pejo de vomitar em qualquer parte palavras obscenas, cantigas licenciosas, até blasfêmias execráveis contra o santo Nome de Deus! ― Et postquam flagellaverint, occident eum ― «Depois de o terem açoitado, o farão morrer». Sim, pois se, segundo a palavra do Apóstolo, cada pecado é uma renovação da crucifixão do Filho de Deus, ah! nestes dias Jesus será crucificado centenas e milhares de vezes.

É exatamente isto que Jesus Cristo quis dizer a Santa Gertrudes aparecendo-lhe num domingo de Qüinquagésima, todo coberto de sangue, com as carnes rasgadas, na atitude do Ecce Homo, e com dois algozes ao lado, os quais lhe apertavam a coroa de espinhos e o batiam sem piedade. Ah! meu pobre Senhor!

II. Refere o Evangelho em seguida, que, aproximando-se Jesus de Jericó, um cego estava sentado à beira da estrada e pedia esmolas. Ouvindo passar a multidão, perguntou o que era. Sabendo que passava Jesus de Nazaré, apesar de a gente o ralhar, afim de que se calasse, não cessava de gritar: Jesus, Filho de Davi, tende piedade de mim (Luc 18, 38). Por isso mereceu que, em recompensa da sua fé, o Senhor lhe restituísse a vista: Fides tua te salvum fecit ― «A tua fé te valeu».

Se quisermos agradar ao Senhor, eis aí o que também nós devemos fazer. Imitemos a fé daquele pobre cego, e neste tempo de desenfreada licença, enquanto os outros só pensam em se divertir com prazeres mundanos, procuremos estar, mais que de ordinário, diante do Santíssimo Sacramento. Não nos importemos com os escárnios do mundo, lembrando-nos do que diz São Pedro Crisólogo: Qui iocari voluerit cum diabolo, non poterit gaudere cum Christo «Quem quiser brincar com o demônio, não poderá gozar com Cristo». Quando nos acharmos em presença de Jesus no tabernáculo, peçamos-lhe luz para detestarmos as ofensas que o magoam tão profundamente. Peçamos-lh’a não somente para nós mesmos, senão também para tantos irmãos nossos desviados: Domine, ut videam ― «Senhor, fazei-me ver».

Amabilíssimo Jesus, Vós que sobre a cruz perdoastes aos que Vos crucificaram, e desculpastes o seu horrendo pecado perante o vosso Pai, tende piedade de tantos infelizes que, seduzidos pelo espírito da mentira, e com o riso nos lábios, vão neste tempo de falso prazer e de dissipação escandalosa, correndo para a sua perdição. Ah! pelos merecimentos de vosso divino sangue, não os abandoneis, assim como mereceriam. Reservai-lhes um dia de misericórdia, em que cheguem a reconhecer o mal que fazem e a converter-se. ― Protegei-me sempre com a vossa poderosa mão, afim de que não me deixe seduzir no meio de tantos escândalos e não venha a ofender-Vos novamente. Fazei que eu me aplique tanto mais aos exercícios de devoção, quanto estes são mais esquecidos pelos iludidos filhos do mundo. «Atendei, Senhor, benigno às minhas preces, e soltando-me das cadeias do pecado, preservai-me de toda a adversidade» + Doce Coração de Maria, sede minha salvação.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Branca Hóstia que eu amo!

                     
                       Tu, que conheces minha pequenez extrema,
                       Não temes Te baixar a mim!

                       Vem ao meu coração, branca Hóstia que eu amo!
                       Vem ao meu coração! Ele suspira por Ti!

                       Ah! Quisera que Tua bondade me deixasse morrer de amor,
                       depois desta graça.
                       Jesus escuta o grito de minha ternura. Vem ao meu coração!


(Santa Teresa de Lisieux)

sábado, 28 de janeiro de 2012

"Não se deve fazer caso do que dizem os mundanos" São Francisco de Sales


Assim que a tua devoção se for tornando conhecida no mundo, maledicências e adulações te causarão sérias dificuldades de praticá-la. Os libertinos tomarão a tua mudança por um artifício de hipocrisia e dirão que alguma desilusão sofrida no mundo te levou por pirraça a recorrer a Deus.



Os teus amigos, por sua vez, se apressarão a te dar avisos que supõem ser caridosos e prudentes sobre a melancolia da devoção, sobre a perda do teu bom nome no mundo, sobre o estado de tua saúde, sobre o incômodo que causas aos outros, sobre a necessidade de viver no mundo conformando-se aos outros e, sobretudo, sobre os meios que temos para salvar-nos sem tantos mistérios.

Filotéia, tudo isso são loucas e vãs palavras do mundo e, na verdade, essas pessoas não têm um cuidado verdadeiro de teus negócios e de tua saúde: Se vós fôsseis do mundo, diz Nosso Senhor, amaria o mundo o que era seu; mas, como não sois do mundo, por isso ele vos aborrece.

Vêem-se homens e mulheres passarem noites inteiras no jogo; e haverá uma ocupação mais triste e insípida do que esta? Entretanto, seus amigos se calam; mas, se destinamos uma hora à meditação ou se nos levantamos mais cedo, para nos prepararmos para a santa comunhão, mandam logo chamar o médico, para que nos cure desta melancolia e tristeza. Podem-se passar trinta noites a dançar, que ninguém se queixa; mas por levantar-se na noite de Natal para a Missa do Galo, começa-se logo a tossir e a queixar de dor de cabeça no dia seguinte.

Quem não vê que o mundo é um juiz iníquo, favorável aos seus filhos, mas intransigente e severo para os filhos de Deus?

Só nos pervertendo com o mundo, poderíamos viver em paz com ele, e impossível é contentar os seus caprichos ― Veio João Batista, diz o divino Salvador, o qual não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Ele está possesso do demônio. Veio o Filho do Homem, come e bebe, e dizeis que é um samaritano.

É verdade, Filotéia, se condescenderes com o mundo e jogares e dançares, ele se escandalizará de ti; e, se não o fizeres, serás acusada de hipocrisia e melancolia, se te vestires bem, ele te levará isso a mal, e, se te negligenciares, ele chamará isso baixeza de coração. A tua alegria terá ele por dissolução e a tua mortificação por ânimo carrancudo; e, olhando-te sempre com maus olhos, jamais lhe poderás agradar.

As nossas imperfeições ele considera pecados, os nossos pecados veniais ele julga mortais, e malícias, as nossas enfermidades; de sorte que, assim como a caridade, na expressão de S. Paulo, é benigna, o mundo é maligno.

A caridade nunca pensa mal de ninguém e o mundo o pensa sempre de toda sorte de pessoas; e, não podendo acusar as nossas ações, condena ao menos as nossas intenções. Enfim, tenham os carneiros chifres ou não, sejam pretos ou brancos, o lobo sempre os há de tragar, se puder.

Procedamos como quisermos, o mundo sempre nos fará guerra. Se nos demorarmos um pouco mais no confessionário, perguntará o que temos tanto que dizer; e, se saímos depressa, comentará que não contamos tudo. Espreitará todas as nossas ações e, por uma palavra um pouco menos branda, dirá que somos insuportáveis. Chamará avareza o cuidado por nossos negócio, e idiotismo a nossa mansidão. Mas, quanto aos filhos do século, sua cólera é generosidade; sua avareza, sábia economia; e suas maneiras livres, honesto passatempo. É bem verdade que as aranhas sempre estragam o trabalho das abelhas!

Abandonemos este mundo cego, Filotéia; grite ele quanto quiser, como uma coruja, para inquietar os passarinhos do dia. Sejamos firmes em nossos propósitos, invariáveis em nossas resoluções e a constância mostrará que a nossa devoção é séria e sincera. Os cometas e os planetas parecem ter o mesmo brilho; mas os cometas, que são corpos passageiros, desaparecem em breve, ao passo que os planetas brilham continuamente. Do mesmo modo muito se parece a hipocrisia com a virtude sólida e só se distingue porque aquela não tem constância e se dissipa como a fumaça, ao passo que esta é firme e constante.

Demais, para assegurar os começos de nossa devoção, é muito bom sofrer desprezos e censuras injustas por sua causa; deste modo nós nos premunimos contra a vaidade e o orgulho, que são como as parteiras do Egito, às quais o infernal Faraó mandou matar os filhos varões dos judeus no mesmo dia de seu nascimento. Enfim, nós estamos crucificados para o mundo e o mundo deve ser crucificado para nós. Ele nos toma por loucos; consideremo-lo como um insensato.

Carlo Maratta, "The Virgin Appears to St. Francis de Sales", 1691

(São Franciso de Sales. Filotéia ou Introdução à Vida Devota. Petrópolis: Editora Vozes, 2004, p. 363-367).

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Solidão por Santa Faustina Kowalska

                          
                          Solidão - meus momentos prediletos!
                          Solidão - mas sempre Convosco, Jesus e Senhor!
                          Junto ao Vosso Coração passo horas agradáveis
                          E junto dele minha alma encontra descanso.

                          Quando o coração está repleto de Vós e cheio de amor,
                          E a alma arde com fogo puro,
                          Então no maior abandono a alma não sente solidão,
                          Porque descansa em Vosso seio.

                          Ó solidão - momentos da mais elevada companhia!
                          Embora abandonada por todas as criaturas,
                          Afundo-me toda no oceano de Vossa divindade,
                          E Vós ouvis ternamente as minhas confidências.


                                                                          Santa Faustina Kowalska



terça-feira, 24 de janeiro de 2012

"Há em nós um palácio onde habita um Rei" Santa Teresa de Jesus

PITTONI Giovanni Battista “Sainte Thérèse d’Avila”

Imaginemos que há em nós um palácio de imensa riqueza, todo construído em ouro e pedras preciosas, digno do Mestre a quem pertence. Em seguida, pensai, minhas irmãs, que a beleza deste edifício também depende de vós. É verdade, pois haverá edifício mais belo do que uma alma pura e cheia de virtudes? E quanto maiores forem, mais resplandecem as pedrarias. Por fim, pensai que neste palácio habita este grande Rei que quis Se tornar nosso Pai; Ele Se senta num trono de grande valor, que é o vosso coração.  Podereis rir-vos de mim e dizer que isto é muito claro. Tendes razão, mas isto foi obscuro para mim durante um certo tempo. Eu compreendia que tinha uma alma, mas a estima que esta alma merecia, a dignidade dAquele que a habitava era algo que eu não compreendia. As vaidades da vida eram como uma venda que colocava sobre os olhos. Se eu tivesse percebido, como percebo hoje, que naquele pequeno palácio da minha alma habita um Rei tão grande, não O teria deixado só tantas vezes; teria ficado de tempos a tempos perto dEle e teria feito o necessário para que o palácio estivesse menos sujo. Como é admirável pensar que Aquele cuja grandeza encheria mil mundos, e muito mais, cabe numa morada tão pequena!

Palestrina - Osculetur me osculo (Canticum Canticorum)


                           Osculetur me osculo oris suores sui
                           Qui a meliora sunt ubera tua vino,
                           Fragantia unguentis optimis
                           Oleum effusum nomen tuum
                           Ideo adulescentulae dilexerunt te.


                           Beija-me com os beijos de tua boca
                           Porque os teus amores são mais deliciosos que o vinho,
                           E suave é a fragrância de teus perfumes
                           O teu nome é como um perfume derramado
                           Por isto amam-te as jovens.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Beata Teresa de Calcutá


        
         O que é Silêncio
         
         
          Silêncio é mansidão
          Quando você não defende a si mesmo contra as ofensas
          Quando você não chama por seus direitos
          Quando você deixa Deus defendê-lo
          Silêncio é mansidão...

          Silêncio é misericórdia
          Quando você não revela a outros a falta de seus irmãos
          Quando você prontamente perdoa sem remexer o passado
          Quando você não julga, mas ora em seu coração
          Silêncio é misericórdia...

          Silêncio é paciência
          Quando você aceita sofrimentos sem reclamar, alegremente
          Quando você não procura consolações humanas
          Quando você não se torna muito excitado
          Mas espera, paciente, que a semente germine
          Silêncio é paciência...

          Silêncio é humildade
          Quando não há competição
          Quando você considera a outra pessoa melhor do que você
          Quando deixa seu irmão brotar, crescer e amadurecer
          Quando você, alegremente, abandona tudo no Senhor
          Quando as suas ações podem ser mal interpretadas
          Quando você deixa para outros a gloria da recompensa
          Silêncio é humildade...

          Silêncio é fé
          Quando você guarda silêncio porque sabe que o Senhor agirá
          Quando você renuncia à voz do mundo
          para manter-se na presença do Senhor
          Quando você não se esforça para ser entendido
          Porque é suficiente para você saber que o Senhor o entende
          Silêncio é fé...

          Silêncio é adoração
          Quando você abraça a cruz sem perguntar “por quê”
          Silêncio é adoração...