quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Amem, mas vejam o que amam.

Conforme Santo Agostinho, o homem há de estar necessariamente amando, mas deve ter consigo a ordenação do amor. 

O amor não pode ter férias. Que outra coisa senão o amor age e todo homem, inclusive no mau? Mostrai-me um amor em férias e que não faça nada. Maldades, adultérios, crimes, homicídios, luxúria, acaso não os faz o amor? Purifique, pois, seu amor. A água que vai para o esgoto, purifique-a e leve-a à horta. Os mesmos ímpetos que tinha para o mundo tenha-os para o Artífice do mundo. Por acaso poder-se-ia dizer que  alguém  não ame nada? De modo algum. Preguiçosos, mortos detestáveis, miseráveis seriam os homens se não amassem. Amem, mas vejam o que amam (A Cidade de Deus, 15,22).

O amor, desordenado, chama-se apetite sensual, ambição; o amor reto, caridade. (Comentários aos Salmos 9, 15)

Cada um é aquilo que ama. Ama a terra? Terra é. Ama a Deus? O que direi? É divino. (Sobre as cartas de São João, 2. 1,4)

De tal maneira se compenetram o amante e o amado que tornam-se uma mesma coisa, e as qualidades do amado passam para o amante e vice-versa, dando-lhes a mesma cor, o próprio ser.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Por que chorou Jesus?

"Ao ver Maria chorar, e os judeus que a acompanhavam a chorar também, Jesus suspirou profundamente e comoveu-Se". Maria chora, choram os judeus, o próprio Cristo chora. Crês tu que sentem todos a mesma tristeza? Maria, irmã do morto, chora porque não pôde conservar o seu irmão nem afastar a morte; por mais que estivesse convencida da ressurreição, a perda do seu único amparo e a ideia da sua cruel ausência, mais a tristeza da separação inevitável, fazem-na desfazer-se em lágrimas que ela não consegue suster. Por muito grande que seja a nossa fé, a implacável ideia da morte não pode deixar de tocar-nos e transtornar-nos; por isso, choravam também os judeus, porque se lembravam da sua condição mortal e desesperavam da eternidade. Nenhum mortal pode deixar de chorar perante a morte. Mas qual destas tristezas foi a de Cristo? Nenhuma? Então por que chora Aquele que dissera "Lázaro morreu, [...] e Eu estou contente"? E eis que derrama lágrimas como os mortais Aquele que, ao mesmo tempo, derrama sobre eles uma vez mais o Espírito que dá a vida! Assim é o homem, irmãos, que tanto sob o efeito da alegria, como da tristeza, desata em lágrimas. Cristo não chorou por causa da desolação da morte, mas por causa da lembrança da alegria, Ele a cuja palavra, à Sua palavra, ressuscitarão os mortos para a vida eterna (Jo 12, 48). Como podia Cristo chorar por fraqueza humana, quando o Pai que está nos céus chora o filho pródigo, não quando ele sai de casa, mas quando regressa (Lc 15, 20)? É por isso que Ele permite que Lázaro morra, para que, ao ressuscitá-lo, se manifeste a Sua glória; permitiu que o Seu amigo descesse à mansão dos mortos para que Deus aparecesse e o resgatasse dos infernos.


São Pedro Crisólogo (406-450) - Bispo de Ravena, Doutor da Igreja

Imagem: "Marta aos pés de Cristo" FROMENT, Nicolas
Fonte: Mosaico

Missa Pro Defunctis "Offertorium" (Cristóbal de Morales)



                                Domine, Iesu Christe, Rex gloriæ,
                                libera animas omnium fidelium defunctorum 
                                de poenis inferni et de profundo lacu.

                                Libera eas de ore leonis,
                                ne absorbeat eas tartarus,
                                ne cadant in obscurum; 
                                sed signifer sanctus Michael 
                                repræsentet eas in lucem sanctam,
                                quam olim Abrahæ promisisti et semini eius.

                                Hostias et preces tibi,
                                Domine, laudis offerimus; 
                                tu suscipe pro animabus illis,
                                quarum hodie memoriam facimus.
                                Fac eas, Domine, de morte transire ad vitam.
                                Quam olim Abrahæ promisisti et semini eius.


sexta-feira, 20 de julho de 2012

Senhor, tende piedade de mim.

Senhor, tende piedade de mim! Sofro, sim... mas quisera que meu sofrimento não fosse tão egoísta; quisera, Senhor, sofrer por tuas dores na Cruz, pelos olvidos dos homens, pelos pecados próprios e alheios, por tudo, meu Deus, menos por mim.

São Rafael Arnaiz Barón

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Dunstable: Descendi in hortum meum


Descendi in hortum nucum,
ut viderem poma convallium
et inspicerem, si floruisset vinea,
et germinassent mala punica.

Eu desci ao jardim das nogueiras
para ver a nova vegetação dos vales,
e para ver se a vinha crescia 
e se as romãzeiras estavam em flor.

(Cântico dos Cânticos 6, 11) 



"Saíram do Seu lado água e sangue"

Se quisermos entender o poder do sangue de Cristo, devemos voltar à antiga narração da sua prefiguração no Egito. "Sacrifica um cordeiro sem mancha", ordenou Moisés, "e asperge tuas portas com o seu sangue". Se lhe perguntássemos o que ele quis dizer, e como o sangue de um ser irracional poderia possivelmente salvar os homens providos de razão, sua resposta seria que o poder de salvar não reside no sangue em si, mas no fato de que ele é um sinal do sangue do Senhor. Naqueles dias, quando o anjo destruidor viu o sangue nas portas, ele não ousou entrar, então quanto menos o demônio se aproximará agora quando ele vê, não o sangue figurativo nas portas, mas o verdadeiro sangue nos lábios dos crentes, as portas do templo de Cristo. Se desejas mais provas do poder deste sangue, lembra donde veio ele, como verteu da cruz, fluindo do lado do Mestre. O evangelho lembra que, quando Cristo estava morto, mas ainda pendendo da Cruz, um soldado veio e transpassou o seu lado com uma lança e, imediatamente, saíram sangue e água. Então a água foi um símbolo do batismo, e o sangue, da santa Eucaristia. O soldado transpassou o lado do Senhor, rompeu o muro do templo sagrado, e eu encontrei o tesouro e apossei-me dele. O mesmo com o cordeiro: os judeus sacrificaram a vítima e eu fui salvo por ela.
"Saíram do seu lado água e sangue". Amado, não passes ao largo desse mistério sem refletir; ele tem ainda mais um sentido oculto, que te explicarei. Eu disse que água e sangue simbolizavam o batismo e a santa Eucaristia. Desses dois sacramentos, a Igreja nasceu: do batismo, "a água purificadora que faz renascer e renovar pelo Espírito Santo", e da santa Eucaristia. Já que os símbolos do batismo e da Eucaristia fluíram do seu lado, foi do seu lado que Cristo formou a Igreja, como formara Eva do lado de Adão. Moisés dá uma ideia disso quando conta a história do primeiro homem e fá-lo exclamar: "Osso dos meus ossos e carne da minha carne!". Como Deus tomou uma costela do lado de Adão para formar uma mulher, assim Cristo deu-nos sangue e água do seu lado para formar a Igreja. Deus tirou a costela quando Adão estava num sono profundo, e, do mesmo modo, Cristo deu-nos o sangue e a água após a sua própria morte.
Entendes, então, como Cristo uniu sua esposa a si mesmo, e que alimento ele nos dá a todos para comer? Por um e o mesmo alimento nós somos trazidos à existência e nutridos. Como uma mulher nutre seu filho com seu próprio sangue e leite, assim Cristo incessantemente nutre com seu próprio sangue aqueles a quem ele mesmo deu a própria vida.

São João Crisóstomo

terça-feira, 26 de junho de 2012

Do amor a Deus

Diliges Dominum Deum tuum ex toto corde tuo - " Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração" (Mateus 22, 37).

Entre todos os amigos do mundo, onde encontraremos um mais fiel, mais amante do que Deus? Amemos, pois, conforme o Seu desejo, de todo coração e agradeçamos-lhe muitas vezes o obsequio que nos fez de chamando-nos a Seu amor. Estejamos certos de que Jesus Cristo não se deixará vencer em amor, e recompensará, cento por um, o que fizermos por amor a Ele. Cada ato  intensivamente  perfeito de amor para com Deus, faz-nos adquirir um novo mérito igual a todos os méritos antes adquiridos.


É um favor especialíssimo, diz Santa Teresa, o que Deus dispensa a uma alma, quando a chama a Seu amor, e já que nos chamou a Seu amor, amemo-lo assim como Ele quer ser amado: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração. O Venerável Padre Luis da Ponte tinha vergonha de dizer a Deus: "Senhor, amo-Vos sobre todas as coisas; amo-Vos sobre todas as criaturas; sobre todas as riquezas; sobre todas as honras e prazeres terrenos"; era como lhe dissesse: Senhor, amo-Vos mais do que a palha, a fumaça e o lodo. Deus, porém, já está satisfeito, se o amamos sobre todas as coisas. Digamos-lhe, pois, ao menos:Sim, meu Senhor, amo-Vos mais que às honras terrenas, mais que às riquezas, mais que a todos parentes e amigos; amos-Vos mais que à saúde mais que a minha glória, mais que à ciência , e mais que todas as minhas consolações; numa palavra, amo-Vos sobre todas as coisas e mais que a mim mesmo.
Acrescentemos ainda: Senhor, estimo muito Vossas graças e Vossos dons; mas, porém, do que a Vossos dons, amo a Vós, que só sois uma bondade infinita,  um bem infinitamente amável. superior que a qualquer outro bem. Por isso, ó meu Deus, tudo que me quiserdes dar, que não seja Vós mesmo, não me satisfaz; se Vós derdes Vós mesmo a mim, Vós só me bastas. Busquem outros o  bem que quiserem; eu não quero buscar senão a Vós,  meu amor, meu tudo. Em Vós acho tudo quanto  possa achar e desejar.
Dizia a sagrada Esposa que entre todas as coisas tinha escolhido  o amor a seu amado: Dilectus meus candidus et rubicundus, electus est millibus - "O meu amado é cândido e rubicundo , escolhido entre milhares" E nós, a quem queremos dar o nosso amor? Entre todos os amigos deste mundo , onde encontraremos um amigo mais amável?, mais fiel e mais amante do que Deus? Roguemos-lhe, pois, e roguemos-lhe incessantemente: Trahe me post - "Leva-me após Ti." Senhor, atraí-me a Vós, pois sei que sem Vosso auxílio não posso chegar-me a  Vós.
Diz Santo Agostinho que, quem possui Deus possui tudo, e que não tem nada quem não possui  a Deus. De que serve ao rico a posse de todos os tesouros de ouro e pedras preciosas, se não possui a Deus? De que serve a um monarca o domínio sobre muitos reinos, se não possui a graça de Deus? De  que servem ao sábio sua grande sabedoria  e muitas línguas, se não sabe amar a Deus? - Quando David, sendo rei, estava em pecado, percorria os seus jardins, ia à caça, procurava outros divertimentos; mas afigurava-se-lhe que todas as criaturas lhe perguntavam: "Ubi est Deus tuus?" Onde está o teu Deus? Queres achar tua satisfação em nós? Vai, busca a Deus, a quem abandonaste; só Ele   pode te contentar. Por isso confessou que no meio das delícias não tinha achado a paz, e que chorava noite e dia ao pensar que estava sem Deus.
Entre as misérias e as penas deste mundo, quem nos poderá consolar melhor que Jesus Cristo? Ó loucura dos mundanos! Encontra-se mais consolo numa lágrima derramada pela dor dos próprios pecados; vale mais um Meus Deus! dito por uma alma em estado de graça, do que  mil bailes, mil teatros, mil banquetes  conseguem contentar o coração amante do mundo -   Seja, portanto, Deus só todo o nosso tesouro, todo o nosso amo; seja o nosso único desejo contentarmos a Deus que não se deixa vencer em amor. Deus recompensa cento por um cada coisa que fazermos para lhe agradar.  Cada ato intensivamente perfeito de amor para com Deus, nos faz adquirir novo merecimento igual ao de antes adquirido.
Ó meu Deus, sede Vós o grande objeto de  meu amor! Assim como Vos prefiro ao amor de todas as coisas, fazei que em tudo prefira o vosso agrado a todas as minhas vontades. Meu Jesus, ponho a minha confiança em Vosso Sangue, e proponho, para o tempo de vida que me resta não amar neste mundo senão a Vós, para ir um dia possuir-Vos  no Reino dos Céus- Ó Virgem Santíssima, socorrei-me com as vossas poderosas orações, e fazei com que possa ir beijar vossos pés no paraíso.


Santo Afonso Maria de Ligório